Política de regressão

Governador de SC sanciona lei que proíbe cotas raciais nas universidades

Jorginho Mello (PL) diz que fim das cotas promove concorrência mais justa no acesso às universidades
Por ICL Notícias 22/01/2026 - 16:13
A- A+
Divulgação
Jorginho Melo: fim às cotas raciais nas universidades estaduais
Jorginho Melo: fim às cotas raciais nas universidades estaduais

O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), sancionou nesta quinta-feira (22), a lei que proíbe o Estado de financiar instituições de ensino com políticas de ações afirmativas. Na prática, a lei põe fim às cotas raciais nas universidades estaduais.

De autoria do deputado Alex Brasil (PL), a lei proíbe a reserva de vagas suplementares e quaisquer mecanismos similares tanto para o ingresso de estudantes quanto para a contratação de docentes, técnicas, técnicos e demais profissionais. A proposta estabelece exceções em três situações: vagas reservadas para pessoas com deficiência (PCDs); seleção baseada exclusivamente em critérios de renda; vagas destinadas a estudantes oriundos de escolas públicas estaduais.

Caso as regras sejam descumpridas, a instituição poderá ser multada em R$ 100 mil por edital considerado irregular, além de sofrer suspensão de repasses de recursos públicos. Já os agentes públicos envolvidos poderão responder a processos administrativos disciplinares.

O Projeto de Lei 753/2025 foi aprovado em 10 de dezembro na Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina) e aguardava a sanção do executivo estadual.

Entidades apontam inconstitucionalidade na lei


Em dezembro, o MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) declarou que iria apurar se a lei que proibia cotas raciais em instituições de ensino públicas catarinenses era constitucional ou não.

A Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), uma das principais universidades afetadas, emitiu uma nota apontando indicativos de inconstitucionalidade no projeto de lei que proíbe o Estado de financiar instituições de ensino com políticas de ações afirmativas.

A instituição manifestou preocupação e informou que está analisando o texto aprovado e verificando os “impactos nos processos em andamento na universidade, caso seja sancionado pelo governador”. A Udesc acrescentou que há “fundamentos que podem indicar a inconstitucionalidade da proposta”.

Entre os fundamentos, a nota cita a Lei nº 12.711/2012, que dispõe sobre o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio. “Além disso, o Supremo Tribunal Federal (STF) já reconheceu expressamente a constitucionalidade de políticas de ação afirmativa com critérios étnico-raciais”, pontuou.

A Udesc conta com um Programa de Ações Afirmativas que contempla pessoas pretas e pardas, com deficiência e candidatos que cursaram integralmente o ensino médio em escola pública. “No momento, a Udesc também debate no Conselho Universitário (Consuni) a atualização do Programa de Ações Afirmativas”.

A lei não afetará apenas os 100% do orçamento da Udesc. Outras instituições que mantêm convênios com o Estado também serão atingidas. A Universidade Federal de Santa Catarina, o Instituto Federal de Santa Catarina, a Universidade Federal da Fronteira Sul e o Instituto Federal Catarinense podem perder bolsas e apoio a atividades de pesquisa hoje financiadas pelo governo.

As instituições emitiram uma nota de repúdio conjunta: “Trata-se de um ato inaceitável, irresponsável e profundamente regressivo, que despreza décadas de luta por justiça racial e ignora evidências acadêmicas, históricas e sociais incontestáveis”. O texto aponta que as cotas são essenciais à inclusão e finaliza dizendo que não aceitará retrocessos.

Em nota oficial após a sanção, o Governo do Estado de Santa Catarina alega que “pesaram na decisão diversos fatores: uma concorrência mais justa no acesso às universidades, a meritocracia, o respeito à decisão da Assembleia Legislativa em aprovar a nova legislação e a melhoria do acesso aos candidatos mais vulneráveis economicamente”.

Ativista foi presa após protestar contra o fim das cotas raciais

No final de dezembro, Vanessa Brasil, ativista do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), foi presa durante uma ação de panfletagem contra o fim das cotas raciais na Praça XV de Novembro, no centro de Florianópolis (SC). A prisão ocorreu após a Polícia Militar (PM) ser acionada pela deputada estadual Ana Campagnolo (PL).

A PM detalhou que o nome da deputada era citado no panfleto que dizia que um grupo de pessoas “financia o racismo no sul do Brasil”. No papel, entregue na praça à própria Ana Campagnolo, constavam os nomes dos deputados que votaram a favor do projeto de lei, incluindo o da parlamentar.

A defesa de Vanessa disse ainda que foi “totalmente arbitrária porque a conduta não se enquadra como crime de denunciação caluniosa”.

A Amanda Miranda, colunista do ICL Notícias, denunciou, pelas redes sociais, a prisão da ativista. “Muito grave”, disse Amanda. “A gente não está vivendo em uma democracia. Momento de muita tensão para quem é de esquerda, para quem luta pelos direitos humanos, ao lado das minorias. PL Anti-Costa, de natureza racista. Estamos vivendo em um estado com uma Constituição própria”, continuou.

A jornalista esclareceu que Vanessa Brasil foi liberada após ser presa. “Mas não vamos nos calar! O que aconteceu em Florianópolis, na tarde desta quinta-feira, foi coisa de ditadura!”, complementou.


Encontrou algum erro? Entre em contato